Presidida pelo deputado estadual Bira Corôa (PT), a Comissão Especial de Promoção da Igualdade realizou ontem sessão especial sobre o Dia da Consciência Negra. Realizada há 10 anos da Assembleia Legislativa, o evento em 2017 teve como tema ‘Protagonismo da Juventude Negra na Luta Contra o Racismo’. A sessão refletiu sobre os jovens negros na atualidade e sobre iniciativas que têm contribuído para minimizar o quadro de marginalização deste segmento.
Para o deputado Bira Corôa, há avanços e o maior deles é a “instituição de setores na estrutura do Estado que tratam de políticas reparatórias e inclusivas da população negra”. Na análise do parlamentar, isto se reflete por exemplo em uma “consciência libertária crescente da autoidentidade como negros”. Outro reflexo positivo é uma “maior autonomia e liberdade em relação à religiosidade e hoje já há vários negros usando cotidianamente indumentárias e adereços das religiões de matiz africana”.
O deputado aponta a instituição de cotas para negros em universidades como outro fator positivo e que vai além de somente promover a inclusão desta população no sistema formal de educação. “As cotas são também um processo de conscientização não só no que tange às oportunidades educacionais mas atinge a autoestima dos negros”, diz. Refletindo sobre estes avanços, Bira Corôa diz que os negros têm assumido cada vez mais a “beleza exuberante dos cabelos crespos, em detrimento do alisamento artificial que os identificava com a raça branca”. Estas, diz, “são ações libertárias”.

RACISMO

“Mas há o lado ruim, ainda, e ele está concentrado na elite burguesa e dominante que prega o ódio e o racismo em divesos segmentos, como no esporte,  no local de trabalho, nas escolas”. E na intolerância religiosa também, onde, continua o deputado, é propagado “o ódio pelo outro, sendo este outro o negro. O resultado disso é o extermínio da juventude negra pela violência e pelo crime organizado.
Foi para debater estas questões que o deputado propôs a realização da sessão especial de ontem, para “trazer a juventude a protagonizar sua história. Sem inclusão,  sem oportunidades, sem escola, esporte, cultura e lazer os negros não alcançarão a consciência do peso e da importância que têm”, assegura.

Para que esta consciência ganhe força, organizações como o Instituto Odara trabalham. “Lutamos pelo bem viver das mulheres negras”, adianta Ana Paula Rosário, concluindo que “continuamos na base da pirâmide, excluídas socialmente, sem renda de qualidade, recebendo subsalários e sem acesso a um ensino de qualidade”.
E acesso à educação é o passo primeiro para a transformação desta realidade, na visão de Eduardo Machado, da ONG Cipó de Comunicação Interativa, que trabalha com jovens da periferia de Salvador, precisamente no Subúrbio Ferroviário. Lá, ele tem descoberto talentos através de ações de cunho “cultural e midiático”. “Sem educação não há liberdade”, garante.

EDUCAÇÃO

Quanto às políticas públicas, Machado, que monitora os programas Pacto pela Vida e Juventude Viva no subúrbio de Salvador, diz que elas existem mas ainda são de efeito “tímido”. “É preciso investimento pesado e sério na educação”, sustenta, adiantando que o jovem negro da periferia tem um diferencial: “ele é forte e multifacetado. Se não fosse assim, seriam perdidos para o crime e a violência”.

Ana Paula, do Odara, também acha que há políticas públicas. O que falta é implementação, diz. “O feminicídio contra mulheres negras aumentou 54% em uma década”, garante, adiantando que estas políticas oficiais precisam atingir com mais eficácia as “mulheres negras nas comunidades”. Sobre isso ela diz que os grupos e instituições “vêm conversando há muito tempo com a ALBA, com o Ministério Público e a criação de uma Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres seria uma boa”. E isso ainda não existe, garante, “porque quem está à frente do poder são pessoas brancas e ricas, que não vivem o que vivemos, que não sabem da nossa realidade e nem querem saber. Então, temos que fazer o que elas não fazem. Estamos tentando”, conclui.
A sessão de ontem contou com a presença de crianças da escola municipal professor João Fernandes da Cunha, que fizeram uma apresentação cênica e de representantes de entidades de defesa dos direitos dos negros baianos. Compuseram a Mesa dos trabalhos Ana Paula Rosário, do Instituto Odara; Luana Malheiro, da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas; Natália Gonçalves, presidente do Conselho Estadual de Juventude; Sara Prado, representante da Coordenação Estadual de Políticas para Juventude (SJDHDS); Luma Nascimento, empreendedora e Eduardo Machado, da Cipó.

Não há comentários ainda.

Enviar um Comentário

Seu email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com (*).

Você pode usar esses HTML tags e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>